Taxação dos super-ricos: mentira que eles vão fugir

Taxação dos super-ricos: mentira que eles vão fugir Taxação dos super-ricos: mentira que eles vão fugir
Luciano Hang

Recentemente, o empresário Luciano Hang, também conhecido como “Véio da Havan”, voltou a ser assunto nas redes sociais. Famoso por suas falas polêmicas e seu figurino verde e amarelo, Hang resolveu espalhar uma narrativa que, além de equivocada, soa como puro terrorismo psicológico. Ele afirmou que, com a proposta de taxação dos super ricos em debate no Brasil, os milionários estariam prestes a abandonar o país em massa.

Mas será mesmo que os super ricos vão fazer as malas e fugir? Ou será que isso não passa de mais uma estratégia para assustar a população e defender privilégios?

Para entender essa história, precisamos olhar com calma para os números, as comparações internacionais e, claro, as motivações reais por trás desse discurso alarmista.

A falsa pesquisa e o “caos” fabricado

Hang se baseou em uma suposta pesquisa da consultoria britânica Henley & Partners, segundo a qual cerca de 1.200 milionários brasileiros estariam planejando deixar o país em 2025 para escapar dos “impostos abusivos”. Ele compartilhou esses dados no domingo. 06/07, tentando vender a ideia de que, caso os super ricos fossem taxados de forma justa, o Brasil entraria em colapso econômico.

Contudo, ao analisar com cuidado, vemos que essa narrativa cai por terra rapidamente. A proposta em discussão no Congresso visa aumentar a faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil por mês. Para compensar essa redução, o governo sugere uma taxação maior sobre os super ricos, que atualmente contribuem muito pouco em termos proporcionais.

O que fica evidente é que, em vez de lutar por justiça tributária, Hang prefere propagar um discurso de medo para proteger os bolsos dos bilionários. Assim, a elite tenta manter o peso do sistema nas costas dos trabalhadores, enquanto continua usufruindo de isenções e brechas fiscais.

O mundo real: como é a tributação em outros países

Quando olhamos para fora do Brasil, percebemos que a taxação dos super ricos é uma prática comum e, na maioria dos casos, muito mais rigorosa do que aqui.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a alíquota máxima do imposto de renda chega a 39,6%. Além disso, os americanos ricos pagam impostos elevados sobre ganhos de capital, dividendos e heranças.

Na União Europeia, a realidade é ainda mais dura para os milionários. Em média, os países do bloco aplicam alíquotas de 42,8% no imposto de renda, fora os tributos sobre patrimônio, heranças e dividendos.

No Canadá, os mais ricos podem pagar até 53,53% de imposto de renda. Mesmo que não exista uma cobrança sobre heranças, há tributos pesados sobre transferência de ativos e ganhos de capital, compensando outras possíveis brechas.

Japão também impõe alíquotas que ultrapassam 55% para os mais ricos, incluindo tributos sobre heranças e dividendos.

Na Argentina, apesar das crises econômicas, quem detém grandes fortunas paga mais impostos, com alíquotas que chegam a 35% e impostos específicos sobre grandes patrimônios.

Até mesmo a Suíça, conhecida como paraíso fiscal, impõe carga tributária superior ao Brasil quando se leva em conta impostos sobre patrimônio, renda e dividendos.

O mito da “fuga” dos bilionários

Se os super ricos realmente deixassem o Brasil, para onde iriam? Para qualquer país desenvolvido ou mesmo para nações emergentes, eles enfrentariam impostos mais altos. Além disso, abandonar o país não significa fechar os negócios aqui.

Pense: qual empresário fecharia fábricas, lojas ou bancos para transferir tudo para outro país do zero? O Véio da Havan, por exemplo, deixaria suas mais de 180 lojas espalhadas pelo Brasil para abrir megastores nos EUA ou no Canadá? Seria uma decisão tão absurda quanto improvável.

Os bilionários podem até tentar se mudar pessoalmente, mas seus negócios, investimentos e operações financeiras permanecem aqui, gerando receita no território brasileiro. Portanto, mesmo que alguém decida trocar de residência fiscal, seu capital continua fortemente enraizado no mercado interno.

Além disso, as experiências internacionais mostram que, mesmo em países com taxação muito mais alta, os milionários continuam prosperando. Afinal, uma boa infraestrutura, segurança jurídica e mercados estáveis são muito mais importantes do que a simples alíquota de imposto.

O peso da narrativa: proteger privilégios

O que fica claro é que a narrativa criada por Hang e outros bilionários não passa de uma tentativa desesperada de proteger seus privilégios. Ao espalhar medo e confusão, eles buscam impedir qualquer debate sério sobre justiça tributária no Brasil.

Enquanto isso, a população de renda média e baixa carrega uma carga tributária desproporcional. Os impostos indiretos, como aqueles embutidos em produtos de consumo básico, pesam muito mais no orçamento de quem ganha menos.

A taxação dos super ricos, portanto, surge como uma medida necessária para aliviar a pressão sobre os trabalhadores e garantir maior equilíbrio fiscal. Ao cobrar de quem tem mais, o país pode investir em saúde, educação, infraestrutura e programas sociais, fomentando o crescimento econômico e a redução das desigualdades.

A necessidade de justiça tributária

Embora o Brasil seja uma das maiores economias do mundo, ainda é um dos países com maior desigualdade social. Em boa parte, isso se deve a um sistema tributário regressivo, onde os mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos do que os ricos.

Por isso, a proposta de taxar os super ricos não deve ser vista como uma “caça às bruxas”, mas como um passo fundamental para construir um país mais justo. Ao seguir o exemplo de nações desenvolvidas, o Brasil poderá financiar políticas públicas essenciais sem penalizar ainda mais quem já enfrenta dificuldades diárias.

É hora de enfrentar a verdade

A ideia de que os super ricos vão abandonar o Brasil por causa de uma taxação mais justa não passa de um grande mito. Na realidade, trata-se de um argumento falacioso usado para manter o sistema desigual em funcionamento.

Se olharmos com atenção, veremos que o Brasil, na prática, funciona quase como um paraíso fiscal doméstico para os mais abastados. Enquanto isso, a maioria da população luta para pagar contas básicas, sofrendo com a falta de serviços públicos de qualidade.

Portanto, ao invés de temer a taxação dos super ricos, devemos apoiá-la. Esse é um passo necessário para equilibrar a balança e garantir um futuro melhor para todos.

É hora de parar de cair no conto do “caos” e encarar a verdade: um Brasil mais justo depende de um sistema tributário onde quem tem mais, paga mais.

De CBL

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