A capital maranhense celebra a persistência de um sotaque ancestral do Bumba Meu Boi, mantendo viva a chama da cultura local.
O Festival de Boi de Zabumba chega à sua 31ª edição, marcando um ponto alto na agenda cultural de São Luís, ao reunir neste sábado, a partir das 19h, mais de 15 grupos de bumba meu boi do Maranhão no vibrante Largo da Antiga Barrigudeira, no bairro Monte Castelo. Este evento fundamental não apenas celebra, mas também reafirma o compromisso com a preservação de uma das mais autênticas e antigas manifestações do folclore maranhense, destacando a riqueza de um sotaque que ecoa séculos de história.
O boi de zabumba: Raízes da cultura maranhense
Considerado a manifestação mais antiga e genuína do Bumba Meu Boi do Maranhão, o sotaque de zabumba tem suas origens profundamente entrelaçadas com a história do estado. Surgido nas fazendas e senzalas da região da Baixada Maranhense ainda no século 18, ele reflete a fusão de elementos culturais africanos, indígenas e europeus, que moldaram a identidade do povo maranhense. Sua sonoridade característica, impulsionada pelas zabumbas rústicas, é um convite a uma jornada no tempo, relembrando os primórdios dessa que é uma das maiores expressões culturais do Brasil.
Com o passar dos anos, o Bumba Meu Boi diversificou-se em diferentes sotaques, cada um com suas particularidades de instrumentos, ritmo, indumentária e personagens. Entre os mais reconhecidos, além do zabumba, estão os sotaques de matraca, baixada, costa de mão e orquestra. Contudo, o boi de zabumba mantém uma reverência especial por sua ancestralidade e por preservar, em grande parte, os saberes técnicos originais que definem a brincadeira.
Homenagens e a memória viva do folclore
A edição deste ano do Festival de Boi de Zabumba dedica-se a honrar figuras e grupos que são pilares da cultura maranhense. Uma das homenagens é direcionada ao Boi de Carutapera, fundado em 1965, um grupo com uma trajetória rica e significativa que contribuiu imensamente para a perpetuação do sotaque de zabumba. Sua história é um testemunho da resiliência e da paixão pela tradição, inspirando gerações de brincantes e admiradores.
A outra reverência é feita à inesquecível folclorista Therezinha Jansen, falecida em 2008. Dona Therezinha marcou a história como a primeira mulher a dirigir um grupo de bumba meu boi no Maranhão, o lendário Boi da Fé em Deus, além do Tambor de Crioula Amor de São Benedito. Sua liderança abriu caminhos e reforçou a presença feminina na gestão e manutenção das manifestações folclóricas, deixando um legado imaterial inestimável para a cultura do estado e do país.
Participação e expectativa de um grande encontro
A festa promete reunir uma vasta pluralidade de grupos, consolidando o evento como um dos mais aguardados do calendário cultural de São Luís. Mais de 15 grupos de bumba meu boi do estado são esperados para abrilhantar a noite, cada um trazendo sua energia e sua interpretação única do sotaque. Entre os confirmados, o Boi Brilho de São João Liberdade 2 atua como anfitrião, um papel de destaque que sublinha sua importância na cena cultural local. Outros nomes tradicionais como Boi da Fé em Deus, Boi da Liberdade, Boi de Guimarães, Boi de Dona Zeca e o Boi Orgulho de Pinheiro também estão entre os que prometem encantar o público, garantindo a diversidade e a riqueza da celebração.
A 31ª edição do Festival de Boi de Zabumba acontece neste sábado, a partir das 19h, no Largo da Antiga Barrigudeira, Monte Castelo, em São Luís. O evento celebra a riqueza do sotaque de zabumba, o mais antigo do Bumba Meu Boi, com a participação de mais de 15 grupos e homenagens a figuras e instituições importantes para a cultura maranhense.
Reconhecimento e valorização do patrimônio
A importância do Festival de Boi de Zabumba e do próprio Bumba Meu Boi transcende as fronteiras do Maranhão, alcançando reconhecimento nacional e internacional. Em 2016, o Festival foi agraciado com o prestigioso Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Este prêmio atesta o papel fundamental do evento na preservação do Patrimônio Cultural Brasileiro, validando seu esforço em manter viva uma tradição secular.
O Bumba Meu Boi do Maranhão, como um todo, já havia sido registrado como Patrimônio Cultural do Brasil em 2011, no Livro das Celebrações do Iphan, consolidando sua posição como um tesouro cultural do país. Mais tarde, em 2019, sua relevância cultural foi elevada a um patamar global ao ser reconhecido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Tais reconhecimentos são cruciais para a valorização, proteção e transmissão dessa complexa e vibrante manifestação cultural para as futuras gerações.
O Festival de Boi de Zabumba conta com a organização de promotores culturais locais e a participação ativa de mais de 15 grupos de bumba meu boi, incluindo o Boi Brilho de São João Liberdade 2 como anfitrião. Instituições como Iphan e Unesco desempenham um papel crucial no reconhecimento e preservação dessa manifestação, enquanto a memória de Therezinha Jansen e do Boi de Carutapera inspira a todos.
A riqueza dos detalhes do sotaque de zabumba
A singularidade do sotaque de zabumba é meticulosamente descrita por Américo Azevedo Neto em seu livro “Bumba Meu Boi no Maranhão”. Ele ressalta que esse sotaque se destaca por manter os saberes técnicos originais, englobando a comédia, os personagens, o toque, os cantos e as danças que compõem a brincadeira. Essa fidelidade às raízes é o que o torna uma verdadeira cápsula do tempo cultural.
O ritmo é ditado pelas zabumbas rústicas, instrumentos artesanais feitos de madeira retirada do mangue, seguindo tradições ancestrais que incluem até mesmo a observância da lua apropriada para a coleta da matéria-prima. Os pandeiros, por sua vez, são confeccionados a partir do jenipapo e cobertos com couro, demonstrando a profunda conexão com os recursos naturais e os conhecimentos transmitidos oralmente de geração em geração. Os brincantes, organizados em papéis clássicos como amo, indígenas, rajados, vaqueiros, palhaços, pai Francisco e Catirina, além do próprio boi, dão vida à narrativa, encenando a paixão e a morte do boi com um vigor que transcende o espetáculo.
A continuidade de eventos como o Festival de Boi de Zabumba é vital para a salvaguarda da cultura maranhense. Espera-se que a celebração deste sábado inspire novas gerações a abraçar e perpetuar o folclore, garantindo que o legado dos mestres e a riqueza do sotaque de zabumba continuem a ressoar em São Luís e para o mundo, reforçando o turismo cultural e a identidade local.
Cultivando a herança cultural para as novas gerações
A persistência e a celebração de manifestações culturais como o Festival de Boi de Zabumba em São Luís não são apenas eventos festivos; elas representam atos contínuos de resistência e renovação cultural. Ao trazer para o palco as raízes do Bumba Meu Boi, com suas complexas narrativas, ritmos envolventes e indumentárias ricas, o festival assegura que a memória coletiva e o patrimônio imaterial não se percam no tempo. Cada toque de zabumba, cada canto e cada passo de dança reafirmam a identidade de um povo e a riqueza de uma cultura que se adapta, mas nunca esquece suas origens, garantindo que a chama do folclore maranhense continue a brilhar intensamente para as futuras gerações e a encantar visitantes de todo o mundo.
